Fevereiro 22, 2015

Gravação de Coral e Grupo Vocal em Estúdio

Neste artigo quero falar sobre a forma mais confortável, mas não necessariamente a melhor, de gravar um coral: em estúdio. As dicas aqui contidas são pontos de partida para a experimentação. São idéias que venho testando há anos e têm se mostrado eficientes.

O primeiro problema que normalmente encontramos é a própria sala de gravação. Ganhamos em isolamento escolhendo não gravar num teatro, por exemplo, mas não são muitos os estúdios modernos que possuem uma sala suficientemente grande para acomodar 30-40 pessoas e o som que elas produzem. Outro fator é a acústica, a sala não deve ser muito absorvente e de preferência ter um pé direito bem alto. No caso de estarmos gravando um coral não a capela teremos que colocar fones para todos e mais um (o melhor de todos) para o regente. É interessante ter a possibilidade de monitorações diferentes. Por exemplo, podemos usar uma monitoração para as mulheres e outra para os homens ou ainda uma para cada naipe além da diferenciada para o regente.
Alguns exemplos de corais que já gravei dessa forma são: o Coral Despertar de quase 30 vozes, Maranata (de São Paulo) com perto de 20 integrantes e o Colégio Cruzeiro com turmas em torno de 30 crianças de 1ª a 4ª série.
EQUALIZANDO
Procuro manter sempre em mente o conceito de que menos é mais (essa é velha!!), principalmente em termos de equalização. Se o som não estiver bom, não vai ser o eq que irá resolver. Talvez o microfone não tenha sido bem escolhido ou sua posição não esteja legal. Tente de tudo antes de sair cortando e acrescentando frequencias demais.
Quando equalizo penso muito mais em filtragem. Filtrando o que não está bom você melhora todo o resto. Se o som estiver abafado não saia dando boost nos agudos, tente primeiro ver se os graves e médios graves não estão embolando. Com um Q pequeno dê um boost grande (6 dB) e com o botão de frequência ache que área está mais embolada, e então atenue o quanto for necessário. Depois de achar a região regule o Q para que o som fique natural. Procure não exagerar na equalização.
Eu gosto de começar usando o filtro do próprio microfone, normalmente esses cortes são de 75, 80Hz ou 150. Caso ele não tenha, use o do pré, isso já libera um pouco o seu equalizador. Então procuro a faixa de graves ou médio-graves que, por ventura, esteja incomodando e atenuo, parto sempre de 200-250Hz até 800Hz. 400-500Hz costumam funcionar sempre. Essa é uma área muito forte da voz humana. Se ainda assim estiver um pouco embolado procuro algo entre 80Hz e 250Hz e atenuo um pouco também.
Com um coro muito forte você pode sentir o som  estressado nas dinâmicas mais altas da música. Quando sinto isso procuro algo entre 1Khz e 2Khz e atenuo, dessa vez menos ainda que nos graves e médio-graves, essa é outra área muito importante da voz. Parto então para o agudo, agudo mesmo!! Se seu equalizador permitir acrescente uns 4dB em 32Khz, ou então uns 3dB, em 20Khz. Essa região acrescenta um certo “AR” no som do coro, “abre” a sonoridade, mas cuidado com o ruído, quanto mais simples o equalizador mais ruído terá nessa faixa.
Outro problema é a sibilância. Imaginem 40 pessoas dando um “S” ao mesmo tempo, pode ficar realmente alto!! Se o problema não estiver gritante eu procuro lidar com ele mais tarde. Durante a mixagem temos a opção de cuidar disso com mais calma e parcimônia. Se o som do coro gravado estiver muito abafado vai ser difícil fazer com que ele soe bem na mixagem. Pode ocorrer também que, na mix, outros instrumentos mascarem esse excesso de “S”.
Procure manter em mente que quanto menos equalizar melhor, pense sempre de forma subtrativa, causa menos danos, e só acrescente o que for realmente muito necessário.
COMPRIMINDO
Outra vez menos é mais. Não me entendam mal, eu adoro compressores, gosto de ouvi-los atuando, principalmente um valvulado. Não estamos lidando com um solista, nem com um instrumento, um grupo vocal costuma trabalhar muito sua dinâmica, não estrague esse trabalho. Principalmente no caso de corais as variações dinâmicas são enormes.
Durante as gravações gosto e comprimir o mínimo possível, só o suficiente para conseguir um sinal bem equilibrado e sem distorção no gravador. Uma leve arredondada, de, por exemplo, 2:1, comprimindo não muito mais de 2-3dB. Não use o atack e o release muito rápidos.
GRUPOS MÉDIOS E GRANDES (19 a 40 integrantes)
Vou citar alguns exemplos reais de gravação desse tipo de grupo. No caso específico do Coral Despertar usei teclado guia nos fones. Teclados estes que não seriam utilizados na mixagem final, sendo assim o nível de vazamento é um ponto crítico. Acho que o uso do fone de ouvido requer muito costume, é realmente um mal necessário em alguns casos,  principalmente para um coral grande, então, para minimizar esse problema acho interessante que todos os integrantes tirem um lado do fone do ouvido, permitindo assim que escutem o som ambiente com clareza. Acho que só assim conseguem uma boa timbragem. Como não posso ter problemas com vazamento abaixo totalmente o volume de um lado de todos os fones.
A monitoração dos fones é importante. No caso do Coral Despertar dividi meu estúdio em duas salas menores e coloquei em um lado as sopranos e tenores e do outro baixos e contraltos. Nos fones das sopranos e tenores coloquei mais volume de baixos e contraltos e vice-versa. Dividindo o coro e o estúdio ao meio consegui forçar uma imagem estéreo mais forte. Armei um C-414 TL-II para cada parte do coro e mais um par de AKG C-391 de ambiente armados mais altos e longe do coro, na posição XY (farei ainda um artigo sobre microfonações estéreo).
Como eu e o regente Otávio Selles decidimos por um som mais direto sem tanta ambientação, o posicionamento dos coralistas é fundamental. A única forma de conseguir uma boa timbragem é colocar o coro para cantar e, com o regente ainda na técnica, ir mudando o posição das pessoas. Quem canta mais alto fica mais longe. No caso das sopranos tome cuidado com as partes mais fortes, tenha certeza que não está “espetando”, é importante que ninguém sobressaia.
Outra técnica bem usual que ajuda nessa timbragem é dobrar o coral, ou seja, gravar mais de um take da mesma música. É claro que não conseguimos a sensação de termos o dobro de pessoas cantando, mas algumas arestas são acertadas e o coro ganha mais corpo. Esta é uma técnica bastante comum no meio evangélico, por exemplo.
Quando estamos gravando com fone sempre teremos reclamações do tipo “Não estou ouvindo minha voz!!”, “As sopranos estão muito altas no meu fone!!”, uns pedem pra abaixar outros para aumentar, uma confusão danada. O importante nessa hora é não perder a calma, eu já perdi e não adiantou de nada. Devagar, vá regulando as monitorações até atingir uma média que agrade a todos (como se isso fosse possível!!!!). Escute os fones enquanto eles estão cantando, se coloque na posição deles, tenha boa vontade. Num coro sem experiência de gravação você não pode tomar as reclamações de forma literal, procure entender o que estão tentando dizer. Deixe o coro relaxar, aquecer, se acostumar com os fones, não coloque o ar condicionado muito forte, só o suficiente pra não ficar abafado demais.
Outro tipo de microfonação que uso muito para coral é bem simples e conhecida. Um microfone na frente do coral e mais dois de cada lado. A distância entre os microfones e o coro vai depender do efeito desejado. Quando dobro várias vezes procuro variar um pouco essa distância de um take para outro. Essa microfonação eu usei num disco de coral infantil que gravei para o Colégio Cruzeiro. Neste disco as crianças são acompanhadas ora por violão ora por teclado, mas nas duas situações resolvemos não usar fones. Primeiro porque seria muito difícil acostumar uma criança de 1ª série a cantar com fone e em segundo lugar eu adoro meus fones e quero ficar com eles intactos!!!
Tentamos reproduzir a situação que elas estão acostumadas na sala de aula. São 20 turmas de aproximadamente 30 alunos cada, seria impossível acostumá-las com uma situação pouco confortável de gravação. Como o violão estava sendo gravado ao mesmo tempo, tentei fazer com que seu som ficasse bem definido, usei um C-414 com a figura hiper-cardióde, coloquei o violonista de frente para o coral para que o mic ficasse de costas para crianças. E, além disso, como o violão era eletro-acústico, tirei também um sinal de linha separado, posteriormnte talvez possa usar para colocar reverb no violão sem colocar no coro, posso também tirar um som mais grave desse canal.
GRUPOS MÉDIOS (9 a 18 integrantes)
Nesse tipo de formação normalmente posiciono os microfones mais perto dos cantores, porém as microfonações acima também funcionam bem, experimente dobrar uma ou duas vezes microfonando de perto e mais uma ou duas de longe.
Algumas opções interessantes para esses grupos:
1. Dois microfones idênticos armados um de costas para o outro em figura cardióide, com os homens de um lado e as mulheres do outro. Se pretender dar um tratamento diferente para os homens ou mulheres coloque um rebatedor com vidro entre os microfones e mais 2 de cada lado.
2. Um único microfone em figura de oito, com homens de um lado e mulheres do outro. Nessa formação o grupo tem que estar timbrando lindamente, pois temos poucas possibilidade de cuidar do equilíbrio na mix. Se você tiver apenas um super pré, é uma boa opção. Costumo variar essa microfonação com a que cito abaixo.
3. Dois ou mais microfones em omni direcional, com os cantores formando círculos em volta deles. Essa microfonação funciona melhor quando não há a necessidade de regente.
GRUPOS PEQUENOS (3 a 8 integrantes)
Nesses grupos alguns outros recursos podem ser usados:
1. Caso o grupo tenha um bom baixo com a voz bem profunda (lembram do Take 6?) nada soa melhor do que microfona-lo bem de perto, com o microfone de maior cápsula que estiver a disposição. Use e abuse do efeito de proximidade, esse extra grave, se bem controlado por um bom compressor (valvulado!!), dá um peso enorme ao grupo. O volume do baixo costuma não ser muito alto, então cuidado, gravar com pouco volume é quase tão ruim quanto alto demais e cheio de ruído! Com o mic perto você já compensa boa parte dessa falta de volume. Não se esqueça do anti-puff.
2. Muitas vezes o baixo de um grupo imita um baixo elétrico, então não se prive de experimentações, comprima mais do que o normal (8:1, por exemplo), use um reverb só para o baixo, dê uma dimensão especial só para ele.
3. Nem sempre o que é bem vindo num grupo maior é desejado num pequeno. Cuidado com as dobras, num grupo menor acho mais interessante partir para um super som do grupo sem dobra. Gosto de poder identificar cada voz, e ainda assim ouvir uma timbragem perfeita. Em arranjos para esses grupos é comum o uso de muitos solos, então é desejável ter um controle sobre cada uma das vozes.
4. Dependendo do arranjo, e da quantidade de bons mics e prés grave cada cantor num mic, procure isolá-los, principalmente o baixo. Cuidado com o cancelamento de fase, ouça tudo em mono e veja se está tudo certo. Se não, mexa um pouco no posicionamento dos mics ou inverta a fase do mic suspeito. Se o estúdio tiver bons rebatedores monte pequenas baias (esse termo não vai agradar muito!!) separando os cantores. Eu adoro usar rebatedores, acho que não conseguiria gravar num estúdio sem eles. Gosto dos rebatedores com 2m de altura e 1m de largura, de um lado revestidos com tecido e no outro por madeira. Recheados com lã de vidro, e claro, com rodinhas. É fundamental que algum deles tenha uma janela de vidro no meio para permitir a comunicação visual entre os músicos. Trabalhei num estúdio que possuia um rebatedor 100% de vidro, de quase dois metros de altura, não era nada fácil movimentar esse monstro, já que o vidro era bem espesso.
5. Sempre que possível não abra mão de gravar todos ao mesmo!!! Já ouvi um técnico dizer uma frase que resume bem esse conceito: “Cantor canta bem com outro cantor e não com a fita!!!” Você terá mais dificuldades para timbrar gravando um por vez. Deve estar timbrando bem antes de chegar ao mic!! Sempre que posso tento convencer o produtor a experimentar todos juntos ou pelo menos separar por grupos que fazem partes bem definidas onde a trimbragem é mais necessária ainda.
Nessas microfonações onde os cantores ficam mais perto do microfone é indicado o uso de um bom anti-puff.
DOBRANDO
Dobrar um grupo vocal, é um recurso interessante, ajuda a arredondar o som do grupo, disfarça (!!!) as possíveis desafinações e imperfeições na timbragem, encorpa o som, etc. Sugira essa opção ao produtor ou regente, grave umas 2 ou 3 dobras, tenho certeza que desgostar ele não vai! Pode ser que por opções estéticas ele não queira usar esse recurso, mas que fica bom, fica!! Procure não gravar exatamente da mesma forma cada dobra, mude pelo menos um pouco a posição dos cantores, mude principalmente à distância entre eles e o mic. Junto com o regente experimente mudar a interpretação de uma dobra para outra, uma mais agressiva, outra mais calma, uma com mais brilho na voz e outra mais quente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não se prenda a uma idéia somente, misture técnicas. Cuidado para não demorar demais nas experimentações, quando o coro está quente e pronto para gravar, grave. Se demorar demais eles perderão a concentração e até mesmo a boa vontade.
Quanto sei que vou ter gravação de um grupo vocal procuro conversar antes com o regente ou produtor para decidirmos que som queremos conseguir. Se possível escuto alguma coisa que eles já tenham gravado, gosto de dormir pensando em como será a gravação, quanto menos surpresas (ruins) tivermos, melhor. Com menos problemas atravancando a evolução da gravação o clima fica mais leve e o dia será mais produtivo.
O horário marcado para a gravação também pode ser um problema, é muito difícil conseguir marcar com tanta gente ao mesmo tempo. Normalmente eles procuram marcar no horário normal de ensaio. Procure sugerir que não marquem depois de um dia de trabalho, acho ideal reservar um dia inteiro para gravar, um domingo ou sábado, por exemplo. Marque para as pessoas chegarem pelo menos 40 minutos antes da gravação, o aquecimento e o trabalho de afinação deve ser feito com todos que vão gravar, quem chegar atrasado não grava, pelo menos até depois do intervalo.
Gosto quando a gravação começa em torno das 10 da manhã, almoçamos as 14 ou 15hs e gravamos até o início da noite. Não fica tão cansativo e rende muito. Se marcar a noite fica difícil para todos esquecerem os problemas do dia e se concentrarem na gravação. Gosto que acordem e venham direto para o estúdio, almocem por aqui mesmo, sem sair, quanto menos dispersão melhor.
No dia marcado chego uma ou duas horas mais cedo e já monto tudo, mics, fones, etc,. Quando o grupo chega já está tudo pronto. Assim tenho pelo menos mais meia hora para rodar meus botões. Se o grupo estiver empacando em um música específica fique atento para a hora certa de sugerir tentarmos outra.
Procure sempre se dirigir diretamente ao regente, se tiver alguma crítica a fazer faça em particular, escute e discuta o problema com ele na técnica, não faça comentários desagradáveis na frente do coro, são muitas pessoas e você não sabe qual será a reação de cada uma. O grupo pode desanimar e um grupo grande desanimado não consegue gravar nada que preste, fica nítido no som a falta de vibração. Para o coro o importante é manter o bom humor, seja agradável, procure saber o nome de cada chefe de naipe. Na grande maioria das vezes você não estará lidando com cantores profissionais, eles estão lá porque amam cantar, se divertem com isso, a gravação não pode ser um trauma, até porque, se for, eles não voltam pra fazer o segundo!!!
Gravação
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One thought on “Gravação de Coral e Grupo Vocal em Estúdio

  1. Renato disse:

    Show de bola, gostei pacas, e ficaria ainda mais contente caso haja novas atualizações. Estarei aguardando.

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